o que não vaza é pele

escrevo com letra minúscula. costumo fazer assim. minhas frases são pequenas como somos todos. minha voz é potente e ocupa lugar no espaço. todos temos voz. juntos, pequenos, somos muito, muito grandes.

tenho lido TODAS as mensagens, emails, matérias… isso me conforta, me emociona e me dá força. tento responder aqui e descrever o que aconteceu em blumenau.

o convite
estive presente na 24ª edição do festival internacional de teatro universitário a convite da professora pita belli. junto com meus sócios elaboramos 4 ações do feto – festival estudantil de teatro e uma ação do aporta – encontro estudantil de artes cênicas.

minha chegada na cidade foi no dia 12 de julho de 2011, às 2:00 da manhã.

o acontecimento

no dia 12, após assistirmos o espetáculo “trajetória \”x”\”, do grupo chia, liiaa! [direção fernando villar – unb – brasília/df], nós da equipe da no ato cultural fomos jantar na companhia da professora ana fabrício [faculdade de arte do paraná – fap – curitiba/pr] e por coincidência um dos assuntos foi a porcentagem de negros no sul do país e o trabalho feito por ela na coordenação pedagógica do festival do teatro brasileiro, no mês de junho.

mais tarde, voltamos eu, byron o’neil e rodrigo soares ao ponto de encontro do fitub, que acontecia no foyer do teatro carlos gomes, para buscarmos a filmadora que havia ficado no escritório do festival. algumas pessoas, dentre elas o professor naciso telles [universidade federal de uberlândia]. ficamos conversando sobre participação em redes de teatro, política pública cultural, ações do movimento nova cena e parcerias para o ano corrente.

o ponto de encontro encerrou suas atividades e cerca de 60 pessoas se dirigiram, após sugestão do organizador do bar do ponto de encontro, ao posto hass [localizado à rua são paulo, próximo à prefeitura]. o intuito foi continuar as conversas sobre teatro, ensino das artes, intercâmbio e festivais antes de retornarmos ao hotel. era por volta de 3:20h do dia 13 de julho. chegando no posto, ficamos longe das bombas de combustível e ordenadamente, quem tinha necessidade, adentrava a loja de conveniência para adquirir o que fosse de seu desejo.

realmente acredito que 60 pessoas, mesmo sussurrando, causem barulho, porém, não havia balbúrdia. não tínhamos instrumentos musicais, nem equipamentos de som. o objetivo era a troca de informações e vivências.

às 3:40h chegou uma viatura da polícia militar no posto. a viatura estacionou de modo a obstruir a visão daqueles que se localizavam dentro da loja de conveniência. os policiais abordaram estas pessoas dizendo “saiam daqui bando de vagabundos” entre outras frases que não me recordo. como atuo em em belo horizonte com movimentos populares buscando a ocupação humanizada da cidade e por fazer parte de uma família de militares vi que aquilo não era o correto e indaguei que a forma estava errada, mas mesmo assim, com ajuda de outras pessoas, fomos conversando com os convivas daquele momento afim de voltar para o hotel. meu sócio, rodrigo soares, se aproximou e perguntou se estava tudo bem, eu disse que sim e ele, acompanhado por byron o’neill, foram até o interior da loja de conveniência para comprar cigarros e cerveja para irmos embora. enquanto as pessoas se afastavam, me assentei no meio fio da parte externa do posto para aguardá-los. ouvi um grito: “VAZA NEGÃO!”. olhei para trás e constatei que o brado era comigo. vendo que um dos dois policias se dirigia a mim, levantei para explicar que eu estava aguardando meus amigos. após minha resposta ouvi: “AQUI NÃO É O SEU LUGAR! vaza negão!”. após esta frase levei um TAPA na orelha direita. ouvi um forte estampido e disse: “o que é isso!? você me machucou!”. ele: “sai daqui! aqui não é seu lugar!” ainda me atingindo com SOCOS e CHUTES. continuei dizendo: “está errado. você não pode fazer isto! esta não é a abordagem correta! estou esperando meus amigos que estão na loja de conveniência!”. mesmo assim os socos e chutes continuaram.

de repente, o segundo policial gritou de onde estava, mais afastado: “o que você está fazendo aqui?” e se dirigiu até onde tudo estava acontecendo. inocentemente, acreditei que ele ia reconhecer a ação absurda de seu colega de corporação. inocentemente… eu disse: “estou esperando meus amigos”. o segundo policial: “aqui não é seu lugar, negão! sai fora! vaza!”. ele deu meia volta, foi até a viatura, pegou uma ESCOPETA, se dirigiu a mim e desferiu VÁRIOS GOLPES no peito. eu continuava dizendo que eles estavam errados, que aquela não era a abordagem correta. procurei a identificação dos policiais, aquela que fica no peito, fixada com velcro, do lado do coração. vi que não estava ali e disse: “vocês estão sem identificação! isto está errado!”. talvez isso fez com que a fúria gratuita aumentasse… fui atingido mais e mais. quando percebi que podia ser espancado até a morte ali, de pé, dei as costas e saí ANDANDO, quando a parte posterior do meu corpo se tornou alvo.

me aproximei das pessoas assustadas que observavam [artistas locais, artistas do restante do país, estudantes universitários da argentina, do uruguai entre outras pessoas] e disse: “é isso!? vamos deixar isto acontecer? vocês acham que eles estão certos?” mas estávamos todos atordoados com tamanha selvageria.

meus dois sócios/amigos saíram da loja sem perceber o que havia acontecido. indagaram os policiais pela forma da primeira abordagem. para minha surpresa, os representantes da justiça não tiveram a mesma reação que tiveram comigo. de longe, pedi para um deles identificar os policiais. o rodrigo se aproximou, pegou meu aparelho celular e tirou uma foto da placa da viatura. saímos do local em direção ao hotel, quando liguei para o 190, para pensar na próxima ação. fui indicado a procurar a corregedoria da polícia militar que iniciaria o atendimento às 13:00h deste mesmo dia.

o desenrolar e as dores

ao acordar, fui procurado pela parte da equipe que não sabia do ocorrido. contei pausadamente para não chocar meus companheiros. ligamos para a corregedoria da polícia militar de santa catarina e fomos indicados a procurar a tenente elisa, da corregedoria da pm de blumenau. lá relatei o fato e identificamos os ocupantes da viatura, que permaneceu no posto até por volta de 5:00h. fato elucidado através do monitoramento do gps da pm. a tenente, ao reconhecer os policias, teve uma expressão que traduzo: “é… realmente sei quem são”, como quem já conhece o histórico destas pessoas. apesar disso não revelou os nomes. fez uma solicitação para o exame de corpo delito para o dia seguinte, 14 de julho, às 11:00h. depois pediu sinceras desculpas e se mostrou realmente envergonhada com a situação.

voltei para o hotel mas as dores no corpo não me deixaram descansar. procurei um hospital particular onde, depois de vários exames, foi marcada uma consulta com o dr. carlos neconecy para o dia seguinte, 14 de julho, às 9:00h, em caráter de urgência.

retornei para o hotel onde nós, equipe da no ato cultural, começamos a traçar as ações que seriam realizadas no dia seguinte: 9:00h consulta urgente, 9:30h manifestação [saindo da porta do teatro carlos gomes até o iml], 11:00h exame de corpo delito e ampla divulgação do ocorrido, urgentemente.

no dia 14 fiz o exame que constatou um rompimento do tímpano [50%] mas não deu tempo de detectar a porcentagem de perda auditiva por causa do horário. fui direto para o iml. lá fiquei sabendo que a polícia militar não pode solicitar o corpo delito, somente a polícia civil. a pressão da chegada de dezenas de populares e da imprensa fez com que este protocolo fosse quebrado e o exame realizado.

o que me deixa dúvidas é: como um exame pode calcular o tempo, a profundidade e a gravidade dos golpes somente com a localização dos hematomas e fotos dos mesmos? porque meu ouvido não foi examinado? por que só houve uma cópia do relatório do médico do hospital particular? este procedimento é sempre realizado desta forma?

logo após cancelei meu retorno a belo horizonte e me dirigi à 1ª delegacia de polícia de blumenau [polícia civil] onde fui recebido pelo agente paulo lázaro correa. o atendimento no princípio foi o “tradicional”, infelizmente, do jeito frio que todo cidadão é recebido quando procura este amparo. a escuta só foi mais humana, como deve ser o atendimento a qualquer cidadão, quando simultâneamente uma matéria foi exibida no jornal local, às 12:30h, com depoimento meu e posicionamento do comandante da polícia militar de blumenau. por que as coisas tem que acontecer deste jeito? a tv foi mais forte que nós, ali, de corpo presente, explicitando todo o ocorrido.

o pedido do exame [já realizado] foi enviado via fax para o iml e o prazo legal para termos acesso ao resultado era de aproximadamente 15 dias. a polícia teria acesso ao exame após 3 dias. eu ainda não tive acesso ao exame e estes prazos não existiram para a polícia, que à noite, já divulgava na imprensa o resultado.

me dirigi ao ministério público de blumenau onde fui recebido, pela primeira vez, como qualquer cidadão deve ser atendido [com respeito, dignidade e escuta interessada] pelo promotor flávio duarte de souza. recebi instruções para os próximos passos.

voltando ao hotel, fui entrevistado por jornais, rádios e sites de todo o brasil. conversei com nilmário miranda e com o movimento da consciência negra de blumenau [veja a moção de repúdio e o ato que acontecerá em frente à prefeitura de blumenau].

retornei à belo horizonte na manhã da sexta-feira, 15 de julho. no mesmo dia houve apresentação do espetáculo “congresso internacional do medo”.

e agora?

as coisas estão caminhando. ainda em blumenau, conversei com muita gente. várias pessoas, chorando, pediram perdão pela ação dos policiais. muitas ficaram preocupadas com a imagem que eu levaria da cidade e com a repercussão do fato.

ok. será isto legítimo? será que a preocupação é esta?

isto acontece todo dia! não só comigo, não só em blumenau! não dá pra disfarçar, fingir que não existe! POR FAVOR!

muita gente se condói, pede desculpas, se emociona. também estou machucado, não estou ouvindo direito, mas só sentir é POUCO. MUITO POUCO!

a notícia se espalhou, o facebook está cheio, o twitter pula como ele só! mas vamos agir. eu continuo agindo.

as comissões de direitos humanos [das três instâncias] estão me ajudando. o comandante geral da polícia de santa catarina vai acompanhar o caso pessoalmente, a furb está sendo exemplar, os meios de comunicação estão envolvidos, os órgãos judiciais já foram acionados, mas tenho umas perguntas:

– CIDADÃOS DE BEM NÃO PODEM ANDAR EM GRUPO DE MADRUGADA?

– É CORRETO POLICIAIS AGREDIREM UM CIDADÃO NEGRO POR NADA?

– É CORRETO POLICIAIS AGREDIREM QUALQUER CIDADÃO POR NADA?

– É COERENTE O COMANDANTE DA POLÍCIA MILITAR DE BLUMENAU DIZER AO VIVO NUM JORNAL TANTOS ABSURDOS SEM APURAR OS FATOS E JUSTIFICAR ERROS MEDÍOCRES DE SEUS SUBORDINADOS APENAS PARA PROTEGER A REPUTAÇÃO DA CORPORAÇÃO?

– É LEGÍTIMO O PORTAL TERRA SE RECUSAR A PUBLICAR O ACONTECIDO SÓ PORQUE EU NÃO QUIS ENVIAR FOTOS DOS HEMATOMAS? O QUE É MAIS IMPORTANTE NO ACONTECIDO SENHOR EDITOR?

– É LÚCIDO O COMANDANTE DA POLÍCIA MILITAR DE BLUMENAU, NO JORNAL NOTURNO, DIZER QUE OS POLICIAIS NÃO SERÃO AFASTADOS POR SE TRATAR DE UM CASO QUE NÃO TEM TAMANHA GRAVIDADE, MESMO EM PODER DO EXAME DE CORPO DELITO?

– É NATURAL UMA CIDADE ACHAR QUE A VIDA É UMA FESTA DE FAMÍLIA E SE PREOCUPAR SOMENTE COM O VERNIZ QUE ESCONDE ALGUMAS TRAÇAS?

estas são as primeiras perguntas, outras virão à reboque. VÁRIAS. o processo está apenas começando. fico feliz por não ser somente um fato, uma coisa que aconteceu somente comigo. tudo isso despertou nos habitantes de blumenau um sentido de pertencimento e reivindicação de direitos. fatos como esse acontecem todos os dias e não podemos fingir que não é conosco, que não nos diz respeito.

apanhei. muito. MUITO.

fiquei o tempo todo DE PÉ, de peito aberto.

acredito que cada um pode (e deve) fazer mais, denunciar mais, gritar, ir para a rua, buscar o seu direito, exigir soluções do poder público, do judiciário, debater as leis, enfim, SER CIDADÃO.

permaneço de pé e caminhando para que o respeito prevaleça.

por todos.

família, irmãos, amigos, negros, ruivos, latino-americanos, argentinos, bolivianos, chilenos, japoneses, mulheres, alemães, gays, crianças…

alexandre de senna

Abaixo, segue texto de Byron O’neil
Alexandre de Sena foi vítima de violência covarde praticada por dois policiais militares racistas na madrugada do dia 13 de Julho na cidade de Blumenau. Alexandre é ator, dj, designer e, acima de tudo, um ser humano. Entretanto, para os dois policiais citados ele é apenas mais um “negão”. Por isso, sentem-se no direito de agredi-lo com socos, pontapés, xingamentos racistas e coronhadas de escopeta. Esse tipo de violência discriminatória acontece todos os dias no Brasil. As vítimas preferenciais são mulheres, negros, homossexuais, crianças, nordestinos, moradores de rua, travestis, idosos, bolivianos, etc. A lista é grande. Porém, vamos tratar aqui especificamente do caso de Alexandre. Dois policiais descem de uma viatura armados de escopeta aos berros de “Vaza, senão a gente vai mandar borracha!”. Uma pessoa argumenta que está esperando amigos que foram comprar cerveja e então é agredida verbal e fisicamente por dois policias despreparados, racistas e sem a identificação que todos os policiais são obrigados a utilizar. E então, o Ten. Cel. Cláudio Roberto Koglin, comandante do 10º BPM de Blumenau dá uma entrevista, para ser educado, no mínimo mentirosa e tendenciosa. Ao ver a entrevista pode-se compreender o porquê do comportamento dos policias, afinal com um comandante desses o que se esperar dos comandados? Dentre outras barbaridades, Koglin diz que os policiais estavam sem identificação porque portavam coletes à prova de bala. Ele acha o quê? Que todos nós somos idiotas? Todo policial é obrigado a andar com identificação com ou sem colete. Quando um policial retira sua identificação ele toma essa atitude justamente com medo de ser identificado ao cometer um crime. Se é verdade que nas rondas de madrugada a polícia militar de Blumenau usa deliberadamente um colete balístico sem identificação, isso significa que o comando da polícia não quer que seus pistoleiros sejam identificados e também que estão cometendo um crime com o aval do comando geral da polícia militar de Santa Catarina. Felizmente os dois já foram identificados por meio da placa da viatura que conduziam. Seus nomes estão apenas sendo preservados por seu querido chefe. Agora um toque para o comandante: se ele acha realmente uma pena que a câmera de segurança não tenha gravado a ação dos policias uma vez que assim, segundo ele, tudo seria esclarecido, que tal pedir as imagens das 4 câmeras de segurança do posto de gasolina? Sim, o posto possui 4 câmeras de segurança, sendo que uma delas cobre exatamente a área onde ocorreu a agressão. No dia seguinte essa câmera foi virada para as bombas de combustível para justificar a ausência de imagens da agressão. Outra solução para esclarecer os fatos é chamar algumas das cerca de 60 testemunhas para depor. O problema é que ele acha que são 60 baderneiros. O repórter o questiona se a ocorrência foi registrada no relatório da PM, uma vez que os policias que fazem a ronda no município são obrigados a registrar as ocorrências. Koglin responde dizendo que “Essa ocorrência foi uma iniciativa espontânea dos policias que faziam a ronda e que observaram um grupo de 50 a 60 pessoas em algazarra no posto”. Respondendo ao repórter: não, a ocorrência não foi registrada. Os policias permaneceram no posto das 3:40 da manhã até as 4:50 da manhã aproximadamente e nenhuma ocorrência foi registrada. Todos os carros da polícia de Blumenau são equipados com GPS e os dados foram passados pela corregedoria da polícia de Blumenau. Um ponto importantíssimo da entrevista é no momento em que ele afirma que um inquérito já foi instaurado e que está apenas esperando o laudo da perícia para saber se a versão correta é a do cidadão, que é a maneira como ele trata Alexandre, ou a dos policiais. Numa outra entrevista para a mesma emissora o comandante do 10º BPM de Blumenau, já de posse dos relatórios do exame de corpo de delito confirmando as agressões e o rompimento do tímpano de Alexandre, diz que os policiais não serão punidos porque o fato não foi tão grave assim. Desnecessário tecer qualquer comentário. O problema é que, segundo ele, “O comportamento não é adequado do policial, assim com não é adequado o comportamento do cidadão que está às 3, 3 e meia da manhã na rua fazendo algazarra, em torno de 60 pessoas perturbando a paz e o sossego das pessoas”. Deixe-me ver se entendi. Em primeiro lugar é necessário dizer que as pessoas não estavam fazendo algazarra e sim bebendo cerveja, rindo e conversando. Não havia nenhum instrumento musical ou qualquer aparelho sonoro. Os baderneiros eram dramaturgos, atores, músicos, organizadores de festivais de teatro, cineastas e estudantes universitários de várias partes do Brasil e da América Latina. Estavam na cidade participando do FITUB – Festival Internacional de Teatro Universitário de Blumenau, onde também acontece no mês de Outubro, a Oktoberfest, considerada a maior festa alemã das Américas. É também a maior festa germânica do Brasil. Durante a Oktoberfest milhares de pessoas, durante 17 dias, enchem a cara de cerveja, mijam nas ruas da cidade, catam cantigas alemãs até o amanhecer e, pasmem, não são considerados baderneiros! Por que a diferença no tratamento? É normal em Blumenau que policias desçam armados de escopeta para abordar um grupo de pessoas que esteja na rua de madrugada? O que significa isso? Toque de recolher? Por acaso voltamos ao tempo da ditadura militar e não nos avisaram? Numa outra entrevista a um jornal quando indagado se outros policiais não viam as falcatruas de um trio de policiais que havia sido preso por envolvimento com o tráfico de drogas, Koglin disse que tem fardado que fecha os olhos pros perrengues e finge que nada rolou para não parecer metido. “Há uma falsa ética na polícia. Tu faz e eu não tenho nada a ver com isso.”Pelo menos em uma coisa eu concordo com o Ten. Cel. Cláudio Roberto Koglin: há uma falsa ética na polícia, a começar pelo comandante do 10º BPM de Blumenau, que merece ser punido juntamente com os dois policiais agressores. Com um comandante desses, o que se esperar dos comandados?

Byron O’Neill

Obs1.: Abaixo seguem os links das entrevistas citadas no texto

Obs2.: Eu estava com Alexandre de Sena juntamente com Rodrigo Soares, da Associação No Ato Cultural, no posto onde ocorreu a agressão. Alexandre foi espancado porque disse aos policiais que estava esperando dois amigos que haviam ido comprar cerveja. Os amigos a que ele se refere sou eu e o Rodrigo. Apesar de não ver a agressão, eu e ele batemos boca durante mais ou menos meia hora com os policias porque achávamos que tínhamos o direito de permanecer ali. Apesar dos gritos e da falta de educação dos policiais, eles não encostaram o dedo na gente. Afinal, ao contrário de Alexandre, não somos negros.

Reportagem da RBS – Jornal do Almoço 14/07/2011 – assistam à partir de 06min e 30 seg

http://mediacenter.clicrbs.com.br/templates/player.aspx?uf=2&contentID=195756&channel=47

Reportagem da RBS – Jornal da Noite 14/07/2011 – assistam à partir de 05min e 32 seg

http://mediacenter.clicrbs.com​.br/templates/player.aspx?chan​nel=46&contentID=195828&uf=2

Blog que contém reportagem do Jornal Diarinho de SC

http://olhandocom.blogspot.com/2011/03/o-que-dizer-da-resposta-do-tenente.html

13 DE MAIO

Pixaim Elétrico (de Cristiane Sobral)

Naquele dia
Meu pixaim elétrico gritava alto
Provocava sem alisar ninguém.
Meu cabelo estava cheio de si

Naquele dia
Preparei a carapinha para enfrentar
a monotonia da paisagem da estrada
Soltei os grampos e segui, de cara pro vento, bem desaforada…
Sem esconder volumes nem negar raízes.

Pura filosofia
Meu cabelo escuro, crespo, alto e a grave…
Quase um caso de polícia em meio à pasmaceira da cidade
Incomodou identidades e pariu novas cabeças

Abaixo a demagogia
Soltei as amarras e recusei qualquer relaxante
Assumi as minhas raízes ainda que brincasse com alguns matizes
Confrontando o meu pixaim elétrico com as cores pálidas do dia.

***

À Maria Emília (mãe amanda guerreira)
Axé!!! Odoiá minha Mãe!!!

III Colóquio do NEIA

III Colóquio NEIA
Falas do Outro: literatura e expressão da alteridade
20 e 21 de setembro de 2010
FALE, auditório 2001

Comissão Organizadora

Colóquio
Marcos Antônio Alexandre, Eduardo de Assis Duarte, Constância Lima Duarte, Adélcio de Souza Cruz, Luiz Henrique Silva de Oliveira, Kelen Benfenatti Paiva, Maria Inês Marreco.

Minicurso
Elisângela Lopes, Fernanda Figueiredo, Giovanna Soalheiro.

Comunicação
Marcos Fabrício Lopes da Silva

Apoio
Danielle da Costa Rocha, Josiane Félix dos Santos, Thiago Antônio dos Santos, Luana Diana dos Santos, Marina Luiza Horta, Rafael Gomide Martins.

Programação

20 de setembro, segunda-feira

08:00
Minicurso: Literatura Afro-brasileira no contexto da Lei 10.639/2003
Aline Alves Arruda (IFSULDEMINAS)
Adélcio de Sousa Cruz (Faculdades Integradas ASMEC)

10:00
Mesa Redonda: Carolina Maria de Jesus, literatura e subalternidade
Sandra Regina Goulart Almeida (FALE-UFMG): Quando o subalterno fala?: especulações sobre alteridade, agenciamento e poder
Marília Novais de Mata Machado (UFSJ): Carolina Maria de Jesus e os cinquenta anos de Quarto de Despejo
Coordenação: Eduardo de Assis Duarte (FALE-UFMG)

14:00
Mesa Redonda: Clarice entre cartas, crianças e bichos
Cristina Gonçalves Ferreira de Souza Dutra (Pós-Lit UFMG): Fernando Sabino revisor de Clarice
Ana Caroline Barreto (Pós-Lit UFMG): A literatura infantil de Clarice Lispector
André Leão Moreira (Pós-Lit UFMG): Perto do coração selvagem: a animália no romance de Clarice Lispector
Coordenação: Constância Lima Duarte (FALE-UFMG)

16:00
Mesa redonda: da Literatura Periférica ao Rap – novos autores, novos enredos?
Ingrid Hapke (Universidade de Hamburgo): Literatura periférica e autoridade(s).
Adélcio de Souza Cruz (Faculdades Integradas ASMEC): Literatura ruidosa e trilha sonora na narrativa urbana da diáspora africana
Renegado (Rapper): Depoimento
Vídeo: Rap, poesia, periferia
Coordenação: Vera Casa Nova (FALE-UFMG)

18:00
Minicurso: Literatura Afro-brasileira no contexto da Lei 10.639/2003
Fernanda Rodrigues de Figueiredo

20:00
Palestra: Um livro convida ao diálogo: possibilidades de leitura do discurso poético
Edimilson de Almeida Pereira (UFJF)
Debatedora: Maria Nazareth Soares Fonseca (PUC Minas)
Coordenação: Leda Maria Martins (FALE-UFMG)

21:30
Lançamento:
Um Tigre na Floresta de Signos, organização de Edimilson de Almeida Pereira.

21 de setembro, terça-feira

08:00
Minicurso: Literatura Afro-brasileira no contexto da Lei 10.639/2003
Giovanna Soalheiro Pinheiro (Pós-Lit UFMG)

10:00
Mesa redonda: Novos Olhares sobre Machado de Assis
Mauro Rosso (PUC Rio de Janeiro): O conto em Machado de Assis: contribuição para o resgate de sua relevância ímpar
Eduardo de Assis Duarte (FALE-UFMG): Machado de Assis, três vezes clássico
Coordenação: Sérgio Alcides (UFMG)

11:30
Sessão de autógrafos: Contos de Machado de Assis: relicários e raisonnés, de Mauro Rosso

12:00
Programa Letras e Textos em Ação: Contação de Histórias – Mitologia dos Orixás (Direção Marcos Alexandre)

14:00
Mesa Redonda: Alteridades em discussão por meio das Artes
Luiz Henrique Carvalho Penido (Pós-Lit UFMG): Notas sobre o novo ocidente: teatro e alteridade selvagem em Artaud
Maria de Fátima Bessa Soares (Pós-Lit UFMG): PROJETO CINEMA NEGRO – Literatura e Cinema na sala de aula: Um relato de experiência
Josiane Felix dos Santos (Pós-Lit UFMG): Verde que te quero rosa: um encontro entre a música e a poesia de Cartola e Lorca
Coordenação: Marcos Antônio Alexandre (FALE-UFMG)

16:00
Mesa redonda: Literatura e diferença
Luiz Henrique Silva de Oliveira (Pós-Lit UFMG): Estratégias de modernização do Brasil: uma leitura de A família Medeiros (1892), de Júlia Lopes de Almeida
Helga Lima da Costa: Vilma Guimarães Rosa: Mística, Dramática e Lírica
Kelen Benfenatti Paiva (Pós-Lit UFMG): Mulher em cor e em verso: a escrevivência de Conceição Evaristo.
Maria Inês Marreco (Pós-Lit UFMG): Leda Martins: apreendendo a nervura da diferença
Coordenação: Haydée Ribeiro Coelho (FALE-UFMG)

18:00
Minicurso: Literatura Afro-brasileira no contexto da Lei 10.639/2003
Elisângela Lopes /Marina Luiza Horta

20:00
Mesa redonda: O negro em verso e prosa
Giovanna Soalheiro Pinheiro (Pós-Lit UFMG): O poeta-condor: o Canto negro de Cruz e Sousa
Marcos Fabrício Lopes da Silva (Pós-Lit UFMG): Nota grave, som agudo, esperança melódica: ouvindo a musivivência de Sandra de Sá
Miriam Alves (escritora): Desafio de Poeta: ensinar BrasilAfro em português nos Estados Unidos.
Coordenação: Iris Amâncio (UFF)

21:30
Sessão de Autógrafos:
BrasiliAfro autorrevelado, de Miriam Alves
Falas do Outro: literatura, gênero, etnicidade, organização de Constância Lima Duarte, Eduardo de Assis Duarte e Marcos Antônio Alexandre.

Inscrições: falasdooutro@yahoo.com.br

Realização:
NEIA – Núcleo de Estudos Interdisciplinares da Alteridade
Apoio:
Faculdade de Letras da UFMG // Pós-Lit UFMG // CENEX FALE

SETE VENTOS – novo espetáculo da Cia dos Comuns

SETE VENTOS é um monólogo interpretado pela atriz Débora Almeida baseado em depoimentos de mulheres negras e Iansã, já cumpriu duas temporadas no Rio de Janeiro, e acaba de retornar de Salvador, onde foi apresentado no Teatro Vila Velha a convite da SEPROMI- Secretaria de Promoção da Igualdade do Estado da Bahia em comemoração pelo Dia da Mulher Negra Latino- Americana e Caribenha.
O espetáculo narra a trajetória da escritora Bárbara, filha de Iansã. Ela relembra junto ao público as histórias de mulheres negras que a influenciaram e as histórias de Iansã preservadas pelas mulheres da sua família. Através dos relatos de Bárbara acompanhamos a história da pessoa negra que tenta reconstruir a sua história e identidade través das contradições do seu cotidiano.

fotos comuns

SERVIÇO:
Temporada de 06 a 29 de agosto. Sextas, sábados e domingos às 19h
Local: Teatro II do SESC Tijuca Endereço: Rua Barão de Mesquita, 539, Tijuca

Negraria promove um novo debate: “Diálogo com as Africanidades”

A Cia dos Comuns realiza

OLONADÉ
A cena negra brasileira

Seminário | oficinas | mostra de cinema
| espetáculos de dança e teatro negro de diferentes regiões do Brasil

Abrindo o evento, o seminário abordará os temas:
Mulheres negras líderes do candomblé e a contemporaneidade
Heranças africanas no Brasil
Saliências estéticas de um teatro brasileiro negro
O corpo limiar e as encruzilhadas

Seminário:
08-jul | 10h às 12h30 | 14h às 16h30
Auditório da Biblioteca Nacional
Rua México, s/nº, Centro (acesso pelo jardim)

Entrada franca | Informações: Cia dos Comuns
(21) 2242 0606 | comuns@comuns.com.br

Sara Gómez In Memoriam

El pasado 2 de junio la destacada cineasta afrocubana Sara Gómez Yera
(La Habana 1942-1974) cumplió 26 años de no estar con nosotros. Por este motivo la recordamos y publicamos este trabajo de la psicóloga Sandra Álvarez que ha dedicado importantes trabajos sobre la obra de esta artista.

SARA GÓMEZ, PROTAGONISTA DE SU PROPIA HISTORIA. SARA GÓMEZ Y EL TEMA RACIAL

“[…] mientras la evocación de Sara sea únicamente desde la nostalgia,
el recuerdo o la censura, ella seguirá detenida en cada uno de nosotros,
que jamás sabremos comprenderla.”
Iddia Veitía (1)

El triunfo revolucionario sobrevino cuando Sara Gómez estudiaba el tercer año de bachillerato y por esta causa sale de esta institución educacional para participar directamente en los nuevos acontecimientos sociales.
Entre 1959 y agosto de 1961 Sara participó en muchas de las tareas que fueron convocadas por los jóvenes. Al mismo tiempo participó en espacios de formación, como el Seminario de Etnología y Folklore que sesionaba en el Teatro Nacional; de lo cual Sara dejaría huella en todas sus obras cinematográficas. Tales estudios le ofrecieron a Sara la explicación histórica de sus interrogantes, las cuales eran anteriores a dichos espacios y que supo responder más allá de ellos también. Dicho seminario, dirigido por el reconocido musicólogo Argeliers León, constó con un claustro de lujo: Maria Teresa Linares, Manuel Moreno Fraginals, John Dumoulin, Isaac Barreal, entre otros. Allí se formarían, además, una buena parte de los intelectuales prestigiosos que reconocemos hoy: Rogelio Martínez Furé, Miguel Barnet, Alberto Pedro Díaz, Inés María Martiatu, etcétera.
Todos coinciden en afirmar que Sara Gómez no quería ser “una negrita de la clase media que tocaba el piano”, quizás por ello su salida de aquella sociedad de clase media y del círculo de relaciones estrechas que sus tías habían construido para ella. Esto nos hace pensar que efectivamente a Sara le interesaban los conflictos que más tardíamente enfrentaría en su vida y obra.
Referido al tema racial, Sara Gómez, llegó a ser una militante activa. Es reconocida como la primera mujer pública que se dejó el cabello sin desrizar, hecho que situamos aproximadamente en el año 1971 y que puede ser constatado en las fotos de la familia y sus documentales en los que casi siempre aparece; es en De bateyes (1971) en el primero que es posible verla con un pequeño afro. Sobre este suceso, su amigo y compañero en la lucha contra la discriminación racial, Tomás González apuntaría:
De su pelo […] una mata fuerte, de frondosidad cerrada, bosque negro, tupido y con güije y cocuyos. Por aquel entonces lo llevaba desrizado. Más tarde aquella cabellera sería la primera cabellera natural de los negros de mi país. ¡Una revolución dentro de la Revolución! (2)
Por otra parte, su cabello sin desrizar sería motivo de felicitación por parte de Stokely Carmichael, quien al conocer la noticia le envió un telegrama que fue leído en una reunión realizada en la calle Carlos III, en la casa de Eloy Machado.
El énfasis realizado por mí en este aspecto se deriva de la carga simbólica que tiene tal evento en la vida de una de las mujeres intelectuales más reconocidas de su época. Como expresamos anteriormente, el alisamiento o estiramiento del cabello es un procedimiento que las feministas negras consideran de profunda valoración ideológica, por encima del aspecto estético que pudiese contener. El cabello alisado resume los padecimientos de las personas negras, que luego de ser convertidas en esclavas es objeto de las formas más contemporáneas y casi imperceptibles de discriminación. Es por ello que cuando se lleva el cabello al natural se está contribuyendo a visualizar una buena cantidad de seres humanos que no han sido tenidos en cuenta, favoreciendo con ello la propia autopercepción.
La conciencia racial de Sara también estuvo influida por la bibliografía leída por ella, puesto que hay que reconocer que era una estudiosa sin límite. Malcom X, Marcusse, Franz Fanon y Aimé Cesaire fueron algunos de los autores consultados.
Cuando nos encontramos frente al cine realizado por Sara Gómez se advierte la estridencia del tema racial. El mismo es abordado en toda su magnitud, con sus luces y sus sombras a lo largo de toda su obra cinematográfica. Su interés por poblaciones afrodescendiente la mostraría en varios de sus documentales, en especial en De bateyes (1971), Una isla para Miguel (1968). Asimismo, su interés por procesos o productos culturales populares como pueden ser la rumba en … y tenemos sabor (1967) o los elementos místicos recogidos en De bateyes (1971) son evidencias pertinentes de que Gómez profundizaba en la relación entre los elementos raciales y las practicas culturales existentes en la sociedad cubana.
Por otra parte, su interés por la cuestión racial también se evidencia en la selección de los sujetos y sujetas de su cine: Gladis, Rafael, Maria, Berta, Madrina y hasta la propia Sara. Todas las obras muestran personas negras, y muchas de ellas de manera protagónica, de hecho su película de ficción (De cierta manera, 1974) tiene como tema central una relación amorosa interracial e interclasista, cuyo tratamiento es anticipado, de algún modo, en los conflictos entre Lázaro y Gladis que nos presenta En la otra isla (1968). Asimismo, la situación particular de la mujer negra y pobre es retomada en más de una ocasión: las vivencias de aquella madre negra en De cierta manera (1974) nos dan cuenta de ello.
El reconocimiento de Sara Gómez como intelectual identificada con las problemáticas de las personas negras, aún después del triunfo revolucionario, estuvo relacionado con que fuera acusada de pertenecer a una organización de orgullo negro o black power. (2) Dicho incidente, contado por muchos pero testimoniado por pocos, puede ser interpretado como prueba de que ella era señalada como la cabeza de los debates en torno la problemática racial dentro del círculo de intelectuales negros más prominentes de esa época.

Sara frente a sus personajes
En la otra isla (1968), documental dedicado a Michèle Firk, es el testimonio de nueve jóvenes, cinco mujeres (María, Mapy, Ada, Cacha y Manuela) y cuatro hombres (Rafael, Fajardo, Lázaro y Jaime) que revelan los conflictos que al interno sucedían en la otrora Isla de Pinos, luego de la Juventud, ambiente creado artificialmente para redimir los comportamientos supuestamente punibles de un sector de la población cubana. En este entorno se posibilitaría un cambio de valores, dando lugar a una generación emergente, como bien dice la canción tema: “donde nace la bandera de una nueva juventud”; todas las personas testimoniantes transitan por un proceso de reformación.
La historia más dramática, de las contadas en La otra isla, es la de Rafael, joven negro tenor que como forma de autoflagelación se va a la Isla, a expiar su culpa por ser objeto de discriminación racial por parte de los colegas de la compañía musical donde trabaja. Sara Gómez, muy aguda en sus intervenciones, guía las explicaciones autocensuradoras del joven en aquella entrevista casi psicológica. Él confía en la Revolución para que se superen los prejuicios racistas; y ella insiste en el papel de las personas individuales en la eliminación de los mismos. La Isla ha sido una especie de curación para él, según sus palabras. A nuestro modo de ver, Sara acá llama la atención sobre aquellas conductas que en ocasiones tienen las personas afrodescendientes de autoexcluirse a sí mismas, consecuencia, entre otras cosas, de la baja autoestima, la poca o inexistente autoconciencia racial y, en última instancia, de la posición de víctima que algunas personas han adoptado.
Por otra parte, Rafael considera que “aquí hay otra mentalidad, aquí no es como allá, (la isla grande) los jóvenes que llegan, pues, aquí son sanos, aquí hay otro tipo de conciencia”, lo cual es muy interesante porque se supone que a la Isla de de Pinos llegan personas que de alguna manera se encuentran en los márgenes de la sociedad de la Isla de Cuba. Nos preguntamos entonces: ¿esta juventud en re-educación representa el discurso subalterno, el de los excluidos?, ¿se estaba suscitando en la otrora Isla de Pinos una especie de sociedad paralela cuyos actores y actrices principales están en la periferia de la otra sociedad (en la isla grande) y aquí, en esta nueva forma de relacionarse, son centro?
Al final de su intervención Rafael le pregunta a Sara con extrema sinceridad y cierta pesadumbre: “¿algún día yo llegaré a representar La Traviatta?”. Escalofriante interrogante que nos da cuenta de que las necesidades humanas van mucho más allá de la historia y de las aberraciones y discriminaciones inventadas por los seres humanos. La respuesta es el silencio, el que puede ser entendido a partir de la complejidad que tienen los fenómenos humanos.
Por su parte, Una Isla para Miguel (1968), co-escrita junto a Tomás González, narra como el protagonista, un adolescente negro, ha de encontrar un sentido para su vida en aquella granja destinada a jóvenes “rebeldes sin causa” y cuyo plan de re-educación estaba encaminado a que encontrasen una causa para su rebeldía. Estudio, trabajo y defensa son las tres aristas de tal plan reeducativo.
Miguel, miembro de una familia negra numerosa, está en La Isla por elección de su madre, para “meterlo en camino”, como ella dice. “Él es muy fuerte de carácter” y allá encontró el régimen disciplinario que lo haría entrar en orden, este sería el mensaje que nos evoca la alternancia entre lo dicho por su hermana con los jóvenes que marchan de un lado a otro del campamento.
El “ser hombre, ser macho y ser amigo” que se escucha en voz de la locutora nos remite al interés de Sara Gómez por las maneras de conducirse de los hombres en el barrio, en el ambiente, lo cual toma su máxima expresión en De cierta manera (1974), aquí es posible hallar una continuidad temática entre estas dos obras, a pesar de los 6 años trascurridos entre una y la otra.
Guanabacoa: crónica de mi familia (1966) documental de marcado carácter antropológico, la ascendencia de Sara es el pretexto para observar una parte de la sociedad cubana, precisamente a las personas negras a partir de la familia que le dio origen. Es como si Sara Gómez hubiese necesitado regresar a Guanabacoa en búsqueda de su identidad, “aceptando una historia total, una Guanabacoa total” —dice ella—, de una familia que perteneció a sociedades de color y cuyos miembros no asistían a los bailes públicos, sino que se reunían en El Progreso o en el Porvenir, clubes para negros y negras de clase media o superior.
Una historia contada a partir de fotos familiares, la música y los relatos de “madrina” quien se deleita contando como ellos participaban de una Guanabacoa diferente. Siguiendo a Annette Kuhn, nos atreveríamos a situar a Guanabacoa… dentro de la categoría de “documental feminista”: mujer (o mujeres) que cuenta su historia personal, en primera persona, de frente a la cámara, donde no existe una voz en off tradicional y cuyo ordenamiento cronológico depende de la propia narración. Muy a pesar de su fecha de realización, que es anterior al desarrollo de este tipo de cine, Guanabocoa… da cuenta de la nueva manera de filmar que se iba gestando.
“¿Habrá que combatir la necesidad de ser un negro distinto, superado…?” tal como lo hace Berta la prima preferida de Sara, quien no tiene “complejos”, no intenta mostrar lo que no es, ni aspira a mucho más, ella se conforma en ser la misma negra del espejo. Al tomar partido Sara apostaría ineludiblemente por la simple realización de las personas negras, por su autoaceptación y sobre todo por su sinceridad para con ellas mismas de manera de que el ideal (escrito históricamente desde la blancura) nos los forzase a inventarse un personaje alienado de su propia condición histórica-cultural.
En Guanabacoa… la música se asume como quien cuenta la historia. Quizás la notable familia de músicos a la cual Sara pertenece hace que así sea. Pero lo que une a este documental con Iré a Santiago y con De bateyes, es precisamente el abordaje que se hace de las personas individuales, sus familias, los grupos a los que ellos pertenecen y a la comunidad en general a partir de la locación geográfica. Así visitamos casas, centrales en ruinas, el cementerio de la ciudad, entre otros emplazamientos.
De bateyes (1972) es una obra dedicada a, como su nombre lo indica, las comunidades que se asientan alrededor de un central azucarero -antes ingenio-, y que dependen tanto económica como vivencialmente de lo que sucede en el central. Es una revisión de la cultura cubana a partir de este entorno socio-industrial. Constituye además un regalo a Manuel Moreno Fraginals, autor del célebre libro El ingenio, quien había sido profesor de Sara Gómez en el Seminario de Etnología y Folklore.
Al igual que los anteriores documentales, De bateyes destaca por los aportes que realiza a la etnoantropología, en tanto hace énfasis en la vida de las personas que se congregan alrededor de esta fábrica y cómo crean una cultura que cambia a partir de la relación que establecen con el central, que puede ser desde las más sometidas (clase obrera) como la de las personas que eran sus dueños.
Varias entrevistas aparecen en esta obra, a destacar la realizada a María Elena Molinet, cuyo padre, general de la guerra de independencia, participó en el desarrollo azucarero de la zona nororiental, fundamentalmente a partir de la creación de los centrales Chaparra y Delicias. Esta entrevista da cuenta de la vida de la aristocracia azucarera y sobre todo de las relaciones de poder que se establecían entre ella y la clase obrera.
Pablo Armando Fernández, cómplice de Sara en este documental(4), evocaría la cultura emergente y la relación entre los diferentes modos de producción, y entre las comunidades, evidenciando como en el Occidente se llegó a crear un forma de vida propia, ciertamente diferenciada de lo que sucedería en el Oriente; donde la expansión capitalista sucedida en el siglo XX llevaría en su seno una diversidad étnica-cultural surgida por la concentración en esa zona de personas provenientes de varias islas del Caribe.
Con Conguito llegamos a conocer quienes eran las personas que se asientan en los bateyes, sus prácticas, conductas, sus formas de pensar. Esta última sería la entrevista que diera voz a los negros africanos o caribeños que poblaron estos lugares en determinada época de la historia nacional y de la historia particular de los centrales azucareros, y que constituían la mano de obra en esas industrias. Elementos míticos-religiosos, como la Ceiba traga-cadenas, son abordados con singularidad en De bateyes, entre algunas de las creencias mitológicas que tenían los pobladores.

Finalmente, su interés por la racialidad como tema de narración y en especial de la situación de la mujer negra, es mostrado sobre todo en De cierta manera (1974), Guanabacoa: Crónica de mi familia (1966). Asimismo la posición de Sara Gómez entorno al no alisamiento del cabello, permite enfatizar la importancia que para ella tenía el tema racial. De la misma manera, … y tenemos sabor (1967) expone el interés de Sara Gómez por el vínculo entre la racialidad y algunos componentes de la cultura popular como puede ser los aspectos músico-danzarios y el papel de las mujeres en ellos.

Notas
(1) Iddia Veitía: «Desde la esperanza» en Cine Cubano. No. 127, 1989, p. 36.
(2) Tomás González: «Memorias de una cierta Sara», en Cine Cubano, No. 27, 1989, p. 12.
(3) Véase Alberto Abreu Arcia: Los juegos de la escritura o la (re) escritura de la Historia, Fondo Editorial Casa de las Américas, 2007, p.132-133; en el cual el autor aborda dicha acusación en relación con otros sucesos culturales como el Primer Congreso de Educación y Cultura y la aparición, en 1967, del numero 8 de la revista Pensamiento crítico, que incluyó una entrevista a George Ware.
(4) Pablo Armando Fernández le dedicaría entonces a Sara Gómez un escrito titulado «De Bateyes» como el documental; cuyos fragmentos aparecen en la Gaceta de Cuba No. 2, marzo-abril de 1997, pp. 3-7.