GRITOS EMUDECIDOS: A COR DA VOZ NO TEXTO DRAMÁTICO SILÊNCIO DA CIA DOS COMUNS

GRITOS EMUDECIDOS: A COR DA VOZ NO TEXTO DRAMÁTICO SILÊNCIO DA CIA DOS COMUNS*

Danielle da Costa Rocha (UFMG)

Este trabalho tem por objetivo analisar alguns aspectos do texto dramático Silêncio (2007), da Cia dos Comuns, tais como os signos textuais corpo e voz, a fim de detectarmos os rumos ideológicos que esta escrita percorre. Além do mais, tentaremos observar a qual tradição literária o grupo se inclui, uma vez que é eleito manter um dialogo intertextual com antecessores tais como Cruz e Sousa e Conceição Evaristo. A performance, feita pela primeira vez em novembro de 2007, não será aqui estudada, ficando este trabalho como um provável suporte para uma futura análise do texto espetacular.
A Cia dos Comuns é um grupo de teatro carioca formado por atores negros que buscam por meio das artes cênicas refazer toda uma tradição já estabelecida sobre a afro-descendência. Ao recontar a história afro-brasileira a partir de seu lugar de enunciação, o grupo se lança em um desafio de colocar sob suspeita todas as “verdades” propagadas durante anos sobre a comunidade negra. Com peças como A roda do mundo (2001), Candaces – A reconstrução do fogo (2003) e Bakulo – os Bem lembrados (2006), a Cia dos Comuns constrói um repertório que evidencia claramente o anelo de ocupar um determinado espaço no mundo da dramaturgia que atente para a possibilidade de (re)significação desse ser de papel. Destacamos que essa trilogia citada foi trabalho da construção textual do baiano Marcio Meirelles com a colaboração coletiva do grupo. No entanto, o texto aqui selecionado – Silêncio – toma status de primeiros passos, uma vez que Hilton Cobra – diretor da Cia dos Comuns –, juntamente com a participação coletiva dos integrantes do grupo, o elaborou sem ajudas externas.
Silêncio é um texto dramático que nos adverte sobre o assunto a ser tratado já em seu título. A partir desta informação começamos a elaborar hipóteses sobre os sentidos possíveis da palavra que intitula esse texto. Num primeiro momento, somos levados a pensar que se trataria de um posicionamento estratégico a fim de observar os barulhos/ruídos de nossa contemporaneidade, pensando num sujeito que como o flâneur está em meio à multidão, observando-a e fazendo este também parte dela. Seria este então um exercício de calar-se para estudar o que está ao seu redor. Além dessa possibilidade, pensamos num provável ato de emudecer-se como uma forma de protesto, ação novamente voluntária por parte de quem deseja chamar a atenção do leitor ou do espectador para uma ação e/ou problema. No entanto, não é este o ponto de vista que rege as letras desse texto. O sujeito silenciado que é representado nesta obra dramatúrgica pode até estar na multidão, como o flâneur, ou refletindo a partir de seu lugar silenciado, mas seu posicionamento não é voluntário, e sim imposto. O silêncio aqui retratado é desvelado por meio de uma fala específica, a afro-brasileira, que não mais está disposta a tolerar a imposição de um vazio enunciativo.
Acreditamos que no trabalho de criação textual da peça em discussão, o grupo deve ter voltado os olhos para si mesmo, percebendo que se a voz foi censurada por anos e anos, não houve a possibilidade de calar o corpo. Este, signo vivo de toda uma história que tentaram apagar, também tem o poder da linguagem. E o que percebemos na leitura de tal peça é que enquanto há uma busca pela palavra o corpo já grita. “Ao fundo, uma legião de corpos faz uma travessia entoando uma cama sonora de palavras” (Cia dos Comuns, 2007:2). Não é por meio da boca que se diz algo, não há um sujeito individual se expressando, é o corpo, entendido como signo coletivo, que é portador da palavra.
O corpo da mulher, o corpo do homem ou simplesmente os corpos estão em uma constante ebulição, fazendo com que o texto respire, tome vida. É interessante destacarmos que a este signo nem sempre é atribuída a categoria de gênero, mas a sua tonalidade é sempre a mesma. “Eu sou negro” (Cia dos Comuns, 2007:1) é a fala dita por todos num único coro. E mais “Esse corpo… não é um só corpo” (Cia dos Comuns, 2007: 1), tal frase é proclamada pelos personagens em uníssono, o que nos permite pensar que esse significante é símbolo de uma resistência e denúncia coletiva, mesmo com a mudez da voz.
Mostrando essa consciência de que o corpo também fala por si só, o grupo Cia dos Comuns fez questão de contextualizar historicamente o espaço/tempo do qual sua voz/produção está sendo ecoada. Como num alerta, vemos nas primeiras páginas uma advertência “Psiu, 2007”, esta observação possui um caráter ambíguo, uma vez que pode ser entendida como uma chamada de atenção que tenta direcionar o público a certo contexto histórico, ou fazer referência ao silenciamento dos problemas que estão nos rodeando, isso porque “psiu” é também utilizado num imperativo de fazer alguém se calar. Cabe aqui destacar, então, o quão significativa é essa expressão, pois logo em seguida aparecem informes como “A maioria dos encarcerados nos presídios brasileiros, é negra”, “A maioria dos favelados, é negra” e “A maioria analfabeta, é negra” que vão construindo um pano de fundo para toda a criação imagética que se apresentará logo adiante no texto dramático. É a atenção sendo chamada para a linguagem do corpo, uma vez que este não tem como se calar.
Em Silêncio, a palavra entrecortada, a voz não pronunciada, constitui uma recorrência, assim como é recorrente o destaque dado ao corpo negro. Tal palavra, muitas vezes, é expelida de forma quase frenética. No entanto, observa-se que essa explosão não é desconexa, o tempo da mudez, assim como afirmou Hilton Cobra, foi um tempo de observação. Sendo assim, o sujeito que agora busca a sua palavra se mostra crítico: “Silêncio para descobrir nossa própria fala” (Cia dos Comuns, 2007:2) enfatiza diversas vezes a personagem Valéria. De modo similar, Luiz Silva, poeta, contista, dramaturgo, que trabalha também com o resgate e a reconstrução da história afro-brasileira, em seu texto dramático Canção da Saga (1991), coloca na boca de seu personagem o seguinte enunciado: “A benção da fala/ Vem daquele que se cala” (Cuti, 1991:123). Ambas as enunciações evidenciam quase que o mesmo significado: o ato de falar vem depois do silêncio, silêncio que gera reflexão para descobrir a verdadeira voz, sendo esta bem aventurada.
E essa benção – a fala – é resgatada em Silêncio pelo sujeito feminino que manifesta sua voz, antes calada, e declara num tom de insatisfação:

Ele vem à noite e não me traz flores. Entra pelo telhado, se joga em minha cama, abre minhas pernas, rouba meus sonhos e eu me despetalo. Mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer […] Ele me come e eu olho o teto. Vejo os meninos correndo, os filhos que ele não quer ter comigo. Os deles balançam os cabelos ao vento. Saíram à mãe, me diz orgulhoso, (…) ele não quer ter filhos parecidos comigo, nem parecidos com ele… (Cia dos Comuns, 2007: 6)

Encontramos aqui uma perspectiva feminina afro-brasileira. Como em um desabafo, a personagem Anna Paula vai expelindo suas frustrações amorosas. Contudo, ao expor o que até então só estava dentro dela, a mesma se mostra um sujeito crítico que mesmo em sua mudez reflete sobre sua vivência. Anna Paula sabe o porquê de seu amante não querer ter filhos com ela, ele a ama e a deseja carnalmente, mas prefere perpetuar sua existência, através da prole, com uma mulher branca. Nossa personagem intercala sua fala com um jogo de palavras que nos leva a uma imagem de brincadeira pueril “mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer”, ou seja, a personagem, embora não se conforme com sua atual situação de concubina, deixando isso bem claro, sabe que está inserida em um jogo, no qual numa determinada hora está em vantagem – ela é a amada do seu companheiro – e em outra não – os filhos nunca serão os dela.
Em Silêncio, os gritos emudecidos são ecoados de diversos lugares enunciativos. E encontramos nesse emaranhado de vozes a fala da personagem Negrete, que se encontra no limiar da intolerância. Fica evidente que tal enunciação é fruto de uma saturação de todos os anos vividos na sua mudez. É o histórico de exclusão que gera:

O que eu quero é o espelho invertido, com faces
Fantasmas.
Essa é a hora de ranger os dentes,
Prefiro o medo de mim à pena por mim.
A luta não pára, em mim a estrada.
Só irei parar quando silenciar de gritos àquele
Que nunca me deixou parir os meus gritos. (Cia dos Comuns, 2007: 2)

Não só o desejo de falar, mas o de inverter as posições de poder e privação. É hora de vocês se calarem, nem que seja por medo, é a mensagem a ser entendida. A personagem Negrete personifica uma gama de sentimentos que estão em ebulição, gerando um grande tumulto e explosões. A dor, a perda, a exclusão motivam uma vontade de revanche, expressa na fala citada. Entretanto, uma outra voz ecoa em resposta àquela, mais centrada e consciente de que o sofrimento do “ranger os dentes” não proporcionará que o tempo perdido na mudez volte, quando o personagem Rodrigo expressa: “Espera. E escuta teu tumulto. Antes de partir para guerra […] Quer ver outro prédio cair? Quer ver outro trem explodir?” (Cia dos Comuns, 2007:2). Nesta passagem, encontramos a racionalidade necessária para se perceber que o devolver na mesma moeda só corrobora para a continuidade de um ciclo violento que não aproxima; mas afasta, não agrega; mas elimina. Mostrando-se sujeito de sua época, Rodrigo toca numa das feridas mais abertas de nossa contemporaneidade, a queda das torres gêmeas, mostrando não ser esse o objetivo a ser alcançado após a quebra do silêncio, uma vez que isso deveria libertar e não oprimir.
Destacamos que discursos proferidos no texto dramático não são formadores de uma linearidade que dê ao texto um aspecto de início, meio e fim. Ao estruturar tal obra dessa maneira, a Cia dos Comuns evidencia, através da estética textual, como se dão os encontros dessas vozes antes caladas. As enunciações se chocam e em alguns casos parecem estar refletindo um fluxo de consciência. O poder da palavra é esse objeto desejante por todos os personagens. Há uma busca desesperada; “Você a viu? Eu estou procurando a minha PALAVRA!” (Cia dos Comuns, 2007:3) é o enunciado repetido por diversos personagens.
Essa palavra procurada, fruto de um longo processo de pensamento, traz consigo intertextualidades, uma vez que esse sujeito calado não se acomodou à mudez, desenvolvendo outros sentidos, tais como a visão e a audição, utilizadas para a observação, leitura e estudos. Obras de dois autores foram evocadas em diálogos de Silêncio: “Ressurreição” (1997), de Cruz e Sousa; e Ponciá Vicêncio (2003), de Conceição Evaristo. Sabe-se que o primeiro crítico de uma obra é seu autor, pois este, na construção textual, vai incluindo e excluindo signos textuais de acordo com seus objetivos literários. Por essa razão, devemos considerar essa confluência interliterária como um ato consciente por parte do grupo, que cria assim seus precursores.
Cruz e Sousa, escritor da segunda metade do século XIX, evidencia a sua negritude em alguns de seus poemas, nos quais mostra uma preocupação com os problemas sociais que estavam relacionados aos afro-brasileiros de sua época. No entanto, a vertente do poeta que foi resgata pela Cia dos Comuns é outra, a amorosa. Ao escolher algumas estrofes do poema “Ressurreição”, a Cia utiliza os versos sem modificações. Cabe ressaltar que neste novo contexto, o trecho do texto poético em questão toma outros ares. Enquanto no poema do poeta simbolista aparece o verso “feliz é o coração que escuta” (1997, 116), no qual se percebe uma preocupação em mostrar a importância de um sujeito que se comove, enternece com o amor, esta mesma frase na boca de Rodrigo, personagem de Silêncio, toma outro sentido semântico, esta pode ser entendida como a bem-aventurança de um sujeito que se coloca na posição não somente de fala, mas também de escuta. Além dessa parte destacada, a referência direta à obra de Cruz e Sousa também se faz presente na fala de Bruno: “Posso mesmo já rir de tudo, tudo/ Que me devora e me oprime” (Cia dos Comuns, 2007: 6). Tal declaração pode ser entendida como um posicionamento carnavalizador que desconstrói, através do riso, as hierarquias e pensamentos hegemônicos. Enquanto no poema de Cruz e Sousa, inferimos ser esse verso uma expressão de mudança de horizontes causada pelo amor, antes tudo era tristeza, agora rio até mesmo do sofrimento. Portanto, embora se trabalhe com fragmentos, o sentido final muda, pois o espaço/tempo, o contexto histórico/social, o suporte em que está sendo transmitida, são outros.
Referenciando uma obra mais contemporânea, a Cia dos Comuns elegeu inspirar um de seus diálogos na obra Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo. Esta autora é atualmente uma das mais consagradas escritoras afro-brasileiras que trabalha não somente com o tema, mas também com o ponto de vista desta comunidade. Seu livro Ponciá Vicêncio está sendo objeto de estudos em cursos de graduação e pós-graduação em todo país e vem causando um impacto profundo àqueles que se dispõe a trilhar as andanças de Ponciá, protagonista do livro que recebe seu nome. De forma geral, podemos dizer que tal objeto literário retrata as transformações ocorridas numa descendente de escravas que vê seus sonhos não se realizando, seus filhos morrendo e sua família (mãe e irmão) vagando num mundo sem que ela saiba o paradeiro deles. Por meio da introspecção, Ponciá volta ao tempo em que era menina e ainda tinha medo de virar menino, tempo em que suas mãos modelavam o barro e formavam esculturas e artefatos.
O texto dramático Silêncio se inspira em tal romance numa das falas pronunciadas pelo personagem Sarito, intertextualidade confirmada por meio de nota de pé de página. Eis um pequeno trecho da fala:

A solidão é fria e seca. E minhas esculturas mudas são de barro molhado. Quando espremo o barro entre meus dedos, sinto a única companhia. O úmido toque úmido quente dos meus dias. A única experiência de ter algo parecido com alguém. Misturando-se em verdades sobre mim. Mas elas não falam. Nada dizem que me sopre um vento morno de esperanças. Estou quase oca. Quase sem luz. Estou só e ainda vivo. Caminhos, andanças, sonhos e desencantos tive. E ainda grito. Estou só. Mas é aqui que recobro minha consciência. Daqui é que resisto. (Cia dos Comuns, 2007: 5)

O trecho destacado elege símbolos que nos remetem ao livro Ponciá Vicêncio como as obras de barro, a solidão, os desencantos que aproxima esses dois textos. Logo no início tem-se a impressão que as esculturas de barro logram acabar com o sentimento de isolamento e exclusão de Sarito, uma vez que essa é feita de barro molhado, contrapondo-se ao aspecto frio e seco da solidão. No entanto, a conjunção adversativa “mas” pronunciada na oração “mas elas não falam”, marcam uma diferenciação entre as perspectivas de Sarito e de Ponciá. Ao nosso entender, o barro para Ponciá não é uma tentativa vã de desvincular-se da privação e do desencanto, mas sim uma forma de recuperar a identidade perdida, um jeito encontrado pela personagem de se auto-conhecer. São os seus artefatos uma forma de resistir ao abandono e não uma forma de ceder espaço a este sentimento. A personagem de Silêncio recobre sua consciência estando só, diferente de Ponciá que está em constante interação com suas memórias, seus ancestrais, sua história, tudo por meio do barro.
Procuramos mostrar, nestas rápidas páginas, como ao eleger seus precursores – Cruz e Sousa e Conceição Evaristo – e ressignificar signos como corpo (negro) e voz (antes calada), a Cia dos Comuns se posiciona pertencente a uma tradição literária afro-brasileira. Percebemos ser Silêncio, uma obra que vai manter um diálogo entre ficção e contexto histórico, não percebendo mais o negro por meio de uma visão externa aos seus problemas. O grupo teatral em questão busca evidenciar outras possibilidades de leituras de signos textuais, mostrando ser a personagem afro-brasileira um elemento ficcional também sensível de receber um trabalho textual complexo.

Referências

COBRA, Hilton (encenação). Silêncio. Rio de Janeiro: Caderno de apresentação do espetáculo da Cia dos Comuns, 2007.

CUTI, Luiz Silva. Dois Nós na Noite e Outras Peças de Teatro Negro-Brasileiro. São Paulo: Eboh, 1991.

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Belo Horizonte: Maza Edições, 2003.

SOUSA, João da Cruz e. “Ressurreição”. In: Poesias Completas: Broqueis, Faróis, Últimos Sonetos. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.

* Texto produzido no curso Seminário de Teoria da Literatura e Outras Disciplinas: A Cultura Afrodescendente na Narrativa e no Teatro Contemporâneo Brasileiro e Latino-americano, ministrado pelo professor Marcos Antônio Alexandre, oferecido pelo Programa de Pós-Graduação em Letras – Pós-Lit, da Faculdade de Letras/UFMG.

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Uma resposta para “GRITOS EMUDECIDOS: A COR DA VOZ NO TEXTO DRAMÁTICO SILÊNCIO DA CIA DOS COMUNS

  1. A peça ,o silêncio, é o melhor exemplo de sinestesia da atualidade… o elenco consegue passar um misto de medo, pânico e consciência do poder atroz e avassalador do racismo… eu me emocionei do início ao fim… os olhos de Gabi, as expressões de Bruno, as luzes e os inúmeros personagens veiculados nas falas dos atores me fizeram transcender durante o espetáculo. Parabéns!

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